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Mariana Tomiyoshi

Quando comecei minha carreira em recrutamento e seleção, há quase vinte anos, o LinkedIn ainda nem existia.

O hunting era muito diferente do que conhecemos hoje. Boa parte do trabalho acontecia por telefone, por indicações, por networking e por uma boa dose de curiosidade. Pesquisávamos empresas, mapeávamos estruturas, construíamos relacionamentos e, muitas vezes, encontrávamos um profissional por meio de uma conversa que levava a outra.

Quem viveu essa época provavelmente vai se lembrar.

Depois vieram o LinkedIn, os sistemas de recrutamento, as entrevistas por vídeo, a digitalização dos processos e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa.

Tive o privilégio de acompanhar todas essas transformações de perto.

Há quase dois anos, quando deixei o mercado corporativo para me dedicar integralmente à Psicologia Clínica, a IA generativa ainda começava a ganhar espaço nas empresas. Havia curiosidade, testes e muitas perguntas sobre como ela mudaria a forma de trabalhar.

Hoje, continuo utilizando inteligência artificial praticamente todos os dias. Não para buscar candidatos, mas para estudar, revisar artigos, fazer brainstorming, organizar ideias, estruturar materiais psicoeducativos e pensar em maneiras mais claras de comunicar conceitos da Psicologia.

Ela ampliou minha forma de aprender e produzir conhecimento. Mas continua sendo exatamente isso: uma ferramenta.

Ao mesmo tempo em que essa transformação acontecia nas empresas, outra mudança acontecia na minha rotina. Na clínica, comecei a escutar com cada vez mais frequência profissionais de diferentes áreas falando sobre ansiedade, exaustão, conflitos com lideranças, dificuldades em estabelecer limites, medo de não dar conta e uma pergunta que aparecia de formas muito diferentes, mas com o mesmo significado:

“Qual é o lugar que o trabalho ocupa na minha vida?”

Às vezes essa pergunta surgia depois de um burnout. Outras vezes, depois de uma promoção. Em alguns casos, depois de um desligamento. Em outros, mesmo quando tudo parecia estar dando certo.

Isso me chamou a atenção.

Durante muitos anos, acompanhei pessoas entrando em novas empresas, mudando de carreira, assumindo posições de liderança e construindo trajetórias profissionais. Hoje, acompanho muitas delas tentando compreender a relação que construíram com o próprio trabalho. Curiosamente, a pergunta continua sendo muito parecida.

O que mudou foi a perspectiva.

Enquanto aprendemos a trabalhar com ferramentas cada vez mais inteligentes, também começamos a perceber algo que talvez sempre tenha estado diante de nós: organizações continuam sendo feitas de pessoas. E pessoas não funcionam como algoritmos. Elas carregam histórias, conflitos, inseguranças, expectativas, perdas, desejos, relações e contradições.

Talvez por isso, não me surpreende que, justamente no momento em que a inteligência artificial avança em uma velocidade impressionante, as empresas também estejam olhando com mais atenção para a saúde mental no trabalho. A atualização da NR-1, com a inclusão dos riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança, é um reflexo desse movimento — um reconhecimento de que produtividade e tecnologia não eliminam a necessidade de compreender a experiência humana no trabalho.

Olhando para trás, percebo que minha trajetória nunca foi apenas sobre recrutamento.

E hoje também não é apenas sobre Psicologia.

Sempre foi sobre pessoas.

Antes, procurando compreender encontros entre profissionais e organizações.

Hoje, procurando compreender as histórias que cada pessoa constrói na relação com o trabalho, consigo mesma e com os outros.

A inteligência artificial continuará evoluindo. Novas profissões surgirão. Outras deixarão de existir. Ferramentas continuarão transformando a forma como trabalhamos.

Mas tenho a impressão de que a pergunta mais importante continuará sendo a mesma:

Que lugar o trabalho ocupa na nossa vida?

Talvez seja justamente essa pergunta que conecte tudo o que vivi até aqui: o recrutamento, a tecnologia e, agora, a Psicologia.

E, se existe algo que espero trazer para este espaço daqui em diante, é justamente essa conversa: como as transformações do mundo do trabalho mudam a forma como vivemos, nos relacionamos e cuidamos da nossa saúde mental.

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