Quem cuida de quem cuida?

Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre cuidado.

Não exatamente sobre o ato de cuidar, mas sobre o lugar que ele passa a ocupar na vida de quem, aos poucos, assume essa responsabilidade. Em algum momento, quase todos nós ocuparemos esse lugar. Às vezes quando nasce um filho. Outras vezes quando os pais envelhecem, alguém adoece ou a vida simplesmente muda de direção. O curioso é que essas transformações quase nunca acontecem de uma vez. Elas reorganizam a rotina silenciosamente, até que cuidar deixa de ser apenas uma tarefa e passa a influenciar a forma como vivemos, decidimos e até nos enxergamos.

Na clínica, esse movimento aparece de muitas maneiras. Algumas pessoas reorganizam completamente a própria vida porque alguém passou a depender delas. Outras descobrem que já não conseguem descansar sem culpa, como se interromper o cuidado, mesmo por um instante, significasse falhar com alguém. As histórias são diferentes, mas existe algo que parece atravessá-las: cuidar deixa de ser apenas uma atividade e passa a ocupar um lugar importante na identidade.

Foi lendo a filósofa Joan Tronto que encontrei uma ideia capaz de ampliar essa reflexão. Ao escrever sobre a ética do cuidado, ela propõe que cuidar não é uma característica de algumas pessoas nem uma responsabilidade restrita às famílias ou aos profissionais da saúde. O cuidado faz parte da condição humana. Em diferentes momentos da vida, todos nós cuidamos de alguém e todos nós, inevitavelmente, também precisaremos ser cuidados.

Talvez seja justamente por isso que ele se torne tão invisível.

Quando o cuidado está funcionando, quase ninguém percebe o trabalho necessário para que tudo continue funcionando. Os horários são lembrados, as consultas acontecem, as refeições aparecem, alguém antecipa problemas antes mesmo que eles existam. Costumamos perceber o cuidado apenas quando ele falha ou quando quem sustentava tudo aquilo já não consegue continuar.

Essa ideia conversa com uma observação da socióloga Sophie Brock, que descreve como algumas formas de cuidado se tornam invisíveis justamente porque passam a ser esperadas. Quanto mais natural parece que alguém cuide, menos costumamos enxergar a pessoa que está por trás desse cuidado.

Donald Winnicott talvez descrevesse essa experiência de outra maneira. Ao desenvolver o conceito de holding, mostrou que sustentar alguém vai muito além de realizar tarefas. Significa oferecer um ambiente suficientemente seguro para que o outro possa existir, crescer e atravessar momentos difíceis. É uma presença discreta, quase sempre silenciosa, mas profundamente transformadora.

Talvez seja por isso que, no consultório, raramente alguém diga que está cansado de cuidar. As frases costumam ser outras:

“Sinto culpa quando penso em mim”

“Parece que, se eu parar, tudo desmorona”

“Não sei mais descansar”

Nem sempre estamos diante de um transtorno mental. Muitas vezes, estamos diante de pessoas que passaram tanto tempo olhando para as necessidades dos outros que perderam o hábito de reconhecer as próprias.

Talvez a pergunta mais importante não seja quem precisa de cuidado. Essa resposta costuma ser relativamente fácil de encontrar. A outra exige um pouco mais de atenção.

Quem está sustentando esse cuidado?

Todos nós, em algum momento, ocupamos os dois lugares: o de quem cuida e o de quem precisa de cuidado. Quando esquecemos disso, corremos o risco de deixar de enxergar quem, silenciosamente, sustenta o cuidado dos outros.


Referências

Brock, S. (2022) The Lived Experience of Maternal Ambivalence. Routledge.

Kleinman, A. (2019) The Soul of Care: The Moral Education of a Husband and a Doctor. Viking.

Tronto, J. C. (1993) Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. Routledge.

World Health Organization. (2021) Integrated care for older people (ICOPE): Guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO.

Winnicott, D. W. (1987) Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Este artigo foi útil para você? Compartilhe.

Sobre a autora

Olá, eu sou Mariana Tomiyoshi.

Sou psicóloga clínica e, antes de chegar ao consultório, construí uma trajetória de mais de 20 anos dedicada ao desenvolvimento humano no ambiente corporativo.

Este espaço nasceu do desejo de ampliar essas conversas para além da clínica, compartilhando reflexões fundamentadas na Psicologia sobre trabalho, relacionamentos, maternidade e outras experiências da vida cotidiana.

Continue a leitura