Quando comecei minha carreira em recrutamento e seleção, o LinkedIn ainda nem existia.
Boa parte do trabalho acontecia por telefone, por indicações e por uma boa dose de curiosidade. Depois vieram as plataformas de recrutamento, os ATSs, as entrevistas por vídeo, a digitalização dos processos e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa. Em cada uma dessas mudanças aparecia, de um jeito ou de outro, praticamente a mesma pergunta: “Será que agora as pessoas serão substituídas?”
Os anos passaram, a tecnologia evoluiu muito e as ferramentas mudaram completamente. O curioso é que a pergunta continua praticamente a mesma.
Há pouco tempo descobri que esse sentimento ganhou até um nome: FOBO, sigla em inglês para Fear of Becoming Obsolete, ou medo de se tornar obsoleto. Achei interessante porque esse medo não começou com a inteligência artificial. Ela apenas lhe deu uma nova forma.
Nas minhas últimas experiências no mercado, por exemplo, já era comum acompanhar sistemas de recrutamento utilizando inteligência artificial para comparar descrições de vagas com currículos e sugerir candidatos com maior aderência ao perfil buscado. Não é por acaso que hoje tanta gente adapta o currículo pensando também em como ele será lido pelos algoritmos. Durante muito tempo, a preocupação era chamar a atenção de um recrutador. Em muitos processos, a primeira leitura acontece antes mesmo de qualquer pessoa abrir aquele currículo.
Pouco tempo depois, vivendo uma realidade completamente diferente, voltei a encontrar a inteligência artificial em outro lugar. Enquanto construía o site da minha clínica, conversava com a minha irmã sobre quantas etapas daquele trabalho estavam sendo facilitadas por IA. Layouts, imagens, organização de conteúdo… ferramentas que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente do olhar e da experiência de um profissional. O Canva, por exemplo, já incorpora esses recursos de forma tão natural que, às vezes, quase esquecemos o quanto a maneira de trabalhar mudou em tão pouco tempo.
Foi ali que me dei conta de que o impacto da inteligência artificial não está apenas naquilo que ela faz. Está, principalmente, na velocidade com que transforma aquilo que costumávamos considerar estável.
Essa percepção também se misturava com uma experiência muito pessoal. Há cerca de dois anos, depois de mais de vinte anos em uma mesma área, decidi iniciar uma nova carreira como psicóloga clínica. Voltei a estudar, comecei uma nova prática e precisei me permitir não saber tudo de novo. Quem já recomeçou alguma vez provavelmente conhece essa sensação.
Hoje, escuto histórias muito diferentes das que escutava quando trabalhava com recrutamento. Ainda assim, algumas frases parecem atravessar esses dois mundos.
“Sinto que estou ficando para trás.”
“Parece que nunca sei o suficiente.”
“Tenho a impressão de que preciso provar o meu valor o tempo todo.”
Curiosamente, quase nunca essas pessoas estão falando sobre inteligência artificial.
Durante muitos anos, meu trabalho consistiu em ajudar empresas a encontrar profissionais para determinadas posições. Hoje, acompanho pessoas tentando responder outra pergunta, muito menos objetiva: quem eu continuo sendo quando aquilo que sempre organizou a minha vida começa a mudar?
A carreira é apenas um dos lugares onde essa pergunta aparece. Ela também pode surgir quando um relacionamento termina e precisamos nos reconhecer sem aquela pessoa. Quando nasce um filho e a vida passa a girar em torno de uma nova identidade. Quando chega a aposentadoria depois de décadas seguindo a mesma rotina. Quando um adolescente deixa de ser criança, mas ainda não sabe quem está se tornando.
Percebi, então, que o FOBO chama atenção porque fala de algo muito maior do que tecnologia. Em diferentes momentos da vida, todos nós somos convidados a deixar para trás uma versão de nós mesmos. Algumas mudanças são escolhidas. Outras simplesmente acontecem. Em todas elas existe um período em que ainda não sabemos exatamente quem estamos nos tornando.
É justamente nesse intervalo que costumam aparecer perguntas difíceis.
Quando aquilo que ocupava um lugar importante na nossa vida muda, o que acontece com a forma como nos enxergamos?
Não acredito que essa seja uma pergunta para ser respondida ao final de um artigo. Mas tenho a impressão de que ela merece ser feita sempre que a vida nos convida a recomeçar. E, às vezes, também na terapia.
Referências
Bauman, Z. (2001). Modernidade Líquida. Zahar.
Sennett, R. (2006). A Cultura do Novo Capitalismo. Record.



