Afinal, a IA pode substituir a terapia?

Provavelmente esta é uma das perguntas que mais ouvi nos últimos meses.

Ela aparece em entrevistas, podcasts, nas redes sociais, em conversas entre amigos e, de vez em quando, também no consultório.

Minha resposta costuma decepcionar um pouco quem espera um “sim” ou um “não”. Porque, sinceramente, acho que essa nem é a pergunta mais interessante.

O que realmente desperta a minha curiosidade é outra coisa: o que estamos buscando quando escolhemos conversar com uma inteligência artificial sobre aquilo que sentimos?

Quem leu meu último artigo sabe que utilizo inteligência artificial praticamente todos os dias. Ela faz parte da minha rotina de estudos, ajuda a organizar ideias, revisar textos, estruturar materiais e desenvolver novos projetos. Nunca enxerguei a IA como uma adversária da Psicologia. Pelo contrário. Quanto mais a utilizo, mais ela desperta perguntas sobre o comportamento humano.

Esses dias, conversando com a minha irmã, ela comentou que estava “ensinando a IA dela”. A frase ficou comigo.

Há pouco tempo, diríamos apenas que estávamos aprendendo a usar uma ferramenta nova. Agora acontece algo curioso: além de aprender a utilizá-la, começamos também a ensinar quem somos. Aos poucos, ela passa a reconhecer nossa forma de escrever, nossas preferências, os assuntos que voltam com frequência e parte do contexto que compartilhamos.

Essa mudança aconteceu tão rápido que, muitas vezes, nem percebemos o quanto ela já faz parte da nossa rotina.

Curiosamente, essa conversa começou a aparecer também na clínica. Não porque alguém dissesse que estava “fazendo terapia com uma inteligência artificial”. Nunca ouvi isso dessa forma. O assunto surgia quase por acaso: “Esses dias perguntei para o ChatGPT…”, “Escrevi sobre isso na IA para organizar meus pensamentos”, “Pedi ajuda para pensar antes de conversar com meu marido”.

Quando percebi, aquilo já fazia parte da rotina de várias pessoas, sem que nenhuma delas parecesse considerar isso algo extraordinário.

Enquanto escrevia este texto, percebi que essa mesma pergunta também começou a aparecer nas pesquisas mais recentes sobre inteligência artificial. Em vez de discutir apenas se ela faz bem ou faz mal, muitos pesquisadores passaram a investigar por que tantas pessoas recorrem a essas conversas quando precisam organizar pensamentos, buscar apoio emocional ou refletir sobre conflitos pessoais.

Achei interessante perceber que a própria pesquisa parece ter mudado de foco. A pergunta já não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer, mas o que esse comportamento revela sobre nós.

Acho que quase todo mundo já viveu a experiência de começar a escrever sem saber exatamente o que queria dizer e, algumas linhas depois, perceber que a ideia ficou mais clara. Às vezes isso acontece em um caderno. Às vezes em uma mensagem que nunca será enviada. Agora, para muita gente, essa conversa acontece com uma inteligência artificial.

Escrever organiza pensamentos. Mas organizar pensamentos não é, necessariamente, elaborar um conflito.

Outra questão também passou a me chamar atenção. Muitas pessoas dizem que gostam dessas conversas porque se sentem compreendidas. Isso me fez lembrar de um movimento muito anterior à inteligência artificial. Quando estamos inseguros, é comum procurarmos pessoas que provavelmente concordarão conosco. Pesquisamos esperando encontrar determinadas respostas. Damos mais peso às opiniões que reforçam aquilo em que já acreditamos.

Na Psicologia Cognitiva, esse fenômeno é conhecido como viés de confirmação. A inteligência artificial não cria esse movimento. Mas ela também pode participar dele. E isso não é exatamente um problema da tecnologia, é uma característica humana.

Na clínica, muitas vezes uma única pergunta muda completamente o rumo de uma sessão. Não porque oferece uma resposta pronta, mas porque torna possível olhar para a mesma história por um ângulo que ainda não tinha aparecido.

A inteligência artificial também pode formular boas perguntas. Pode levantar hipóteses, organizar ideias e até ajudar alguém a encontrar palavras para emoções que antes pareciam difíceis de nomear. Eu mesma já me surpreendi diversas vezes com a qualidade de algumas respostas.

Ainda assim, continuo achando que a psicoterapia acontece em outro lugar. Ela acontece na relação construída ao longo do tempo. Nos silêncios. Nas mudanças de tom. Nas contradições que aparecem sem que a pessoa perceba. Naquilo que se repete em diferentes histórias. E, principalmente, no que demora semanas ou meses até conseguir ser dito.

Quanto mais observo esse movimento, menos me interessa discutir se a inteligência artificial vai substituir a terapia. A pergunta que continua me acompanhando é outra.

O que estamos procurando quando escolhemos conversar com uma máquina sobre aquilo que sentimos?

Tenho a impressão de que essa resposta diz muito menos sobre a inteligência artificial do que sobre nós mesmos. Estamos vivendo uma mudança inédita. Pela primeira vez, milhões de pessoas passaram a conversar sobre medos, dúvidas e conflitos com uma tecnologia que responde como se estivesse conversando de volta. Ainda não sabemos todas as consequências disso, mas suspeito que a pergunta mais importante continuará sendo a mesma, independentemente da tecnologia que existir daqui a alguns anos:

O que buscamos quando sentimos necessidade de contar a alguém aquilo que ainda não conseguimos compreender sozinhos?


Referências

Kahneman, D. (2012). Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Objetiva.

Turkle, S. (2011). Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Basic Books.

Turkle, S. (2015). Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age. Penguin Press.

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Sobre a autora

Olá, eu sou Mariana Tomiyoshi.

Sou psicóloga clínica e, antes de chegar ao consultório, construí uma trajetória de mais de 20 anos dedicada ao desenvolvimento humano no ambiente corporativo.

Este espaço nasceu do desejo de ampliar essas conversas para além da clínica, compartilhando reflexões fundamentadas na Psicologia sobre trabalho, relacionamentos, maternidade e outras experiências da vida cotidiana.

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