Há uma coisa curiosa sobre as amizades na vida adulta. Elas continuam sendo importantes, mas parecem ocupar um lugar cada vez menos protegido na nossa rotina. Trabalho tem horário. Escola dos filhos tem horário. Consultas, reuniões, compromissos familiares e tantas outras responsabilidades encontram algum espaço na agenda. A amizade, muitas vezes, fica para quando der.
E quase nunca se trata de uma decisão consciente. Não acordamos pensando que determinada amizade deixou de ser importante. As relações simplesmente vão sendo acomodadas entre tudo aquilo que parece mais urgente: uma conversa que fica para depois, um encontro que precisa ser remarcado, uma mensagem que lemos e pensamos em responder com mais calma. Aos poucos, algumas amizades passam a sobreviver mais da história que construímos juntos do que do tempo que conseguimos compartilhar no presente.
Existe algo na própria natureza da amizade que ajuda a entender por que isso acontece. Diferentemente de muitos outros vínculos da vida adulta, ela costuma existir sem uma estrutura que garanta sua continuidade. Relações familiares têm o parentesco. Relações profissionais têm horários, responsabilidades e espaços compartilhados. Relacionamentos amorosos podem construir uma casa, projetos, casamento ou filhos. A amizade depende muito mais da escolha de duas pessoas de continuarem presentes na vida uma da outra, e essa escolha precisa encontrar espaço em meio a uma vida que vai ficando progressivamente mais cheia.
Mas as amizades não oferecem apenas companhia. Há algo nelas que também participa da forma como construímos quem somos. Os psicólogos Roy Baumeister e Mark Leary descrevem o pertencimento como uma necessidade humana fundamental. Isso ajuda a entender por que algumas amizades ocupam um lugar tão particular na nossa vida. Elas não apenas nos acompanham; nelas também encontramos reconhecimento.
Algumas dessas pessoas conheceram versões nossas que já não aparecem com tanta frequência. Há amigos que conheceram quem éramos antes de determinada profissão, antes de um relacionamento, antes de termos filhos, antes de uma separação, de uma mudança de cidade ou de tantas outras experiências que vão transformando a maneira como nos enxergamos. Encontrar algumas dessas pessoas pode ser também uma forma de reencontrar partes de quem fomos.
Isso não significa que toda amizade precise atravessar a vida inteira. O modelo de redes sociais desenvolvido por Toni Antonucci e colaboradores ao longo de décadas ajuda a compreender como nossos vínculos também se reorganizam conforme mudamos de papel, de contexto e de fase da vida. Algumas relações pertencem a determinados momentos. Outras atravessam anos, distâncias e períodos de pouco contato e ainda preservam uma intimidade difícil de explicar. A duração de um vínculo, por si só, não determina o que ele significou.
Existem também amizades que não chegam exatamente a terminar. Não houve briga, rompimento ou despedida. Existe carinho, uma história compartilhada e, às vezes, até a sensação de que aquela pessoa continua sendo uma amiga. O que já não existe é a mesma intimidade. Em algum momento deixamos de acompanhar as pequenas transformações da vida um do outro e, quando percebemos, sabemos muito sobre quem aquela pessoa foi, mas pouco sobre quem ela está se tornando. É um afastamento difícil de nomear justamente porque não houve um acontecimento que marcasse o fim.
Na clínica, questões relacionadas à amizade nem sempre aparecem com esse nome. Às vezes aparecem como solidão, dificuldade de pertencimento, sensação de não ter com quem conversar sobre determinadas coisas ou percepção de que a vida está cheia de pessoas, mas pobre em espaços nos quais seja possível simplesmente existir. Estar acompanhado e sentir-se acompanhado não são necessariamente a mesma coisa.
A solidão na vida adulta também é mais complexa do que a ausência de pessoas ao redor. É possível ter família, companheiro ou companheira, colegas de trabalho, grupos de mensagens e uma rotina socialmente movimentada e, ainda assim, sentir falta de vínculos em que determinadas partes de nós encontram reconhecimento. A amizade pode ocupar justamente um desses lugares, não porque seja necessariamente mais importante do que outras relações, mas porque oferece uma forma particular de pertencimento.
Pesquisas sobre desenvolvimento adulto também mostram que, com o passar dos anos, nossas redes de relacionamento podem se tornar menores sem necessariamente se tornarem mais pobres. A psicóloga Laura Carstensen propõe que nossas prioridades sociais mudam ao longo da vida e que podemos nos tornar mais seletivos sobre onde investimos tempo e disponibilidade emocional. Isso acrescenta uma nuance importante: nem toda amizade que fica pelo caminho representa uma perda, assim como ter uma rede social extensa não significa necessariamente sentir-se conectado.
Existe um paradoxo nisso. Conforme a vida adulta avança, acumulamos experiências que tornam os vínculos cada vez mais importantes e, ao mesmo tempo, responsabilidades que deixam cada vez menos espaço para cultivá-los. Não significa que tenhamos deixado de valorizar nossos amigos. Pode ser que tenhamos organizado a vida adulta de uma maneira em que a amizade se tornou uma das poucas relações que podem ser adiadas sem consequências imediatas.
E aquilo que pode ser adiado também pode mudar silenciosamente.
Não necessariamente porque alguém decidiu ir embora, mas porque deixamos de acompanhar as transformações um do outro. Uma nova relação, a chegada de um filho, uma separação, uma mudança de cidade, uma perda, uma nova fase profissional. A vida não muda apenas para cada pessoa individualmente; ela também modifica os vínculos que construímos.
Isso nos leva a uma pergunta mais interessante do que por que algumas amizades terminam:
Por que outras conseguem acompanhar quem estamos nos tornando?
Amizades duradouras não são necessariamente aquelas em que duas pessoas continuam parecidas com quem eram quando se conheceram. Algumas parecem durar justamente porque existe espaço para que o outro mude sem precisar permanecer preso à versão de si que existia quando aquela amizade começou. Isso não significa que toda amizade deva durar para sempre. Algumas realmente deixam de fazer sentido. Outras encontram uma maneira de preservar algo importante mesmo quando muita coisa mudou.
Pensar sobre amizade na vida adulta é também pensar sobre identidade. Sobre quem esteve presente enquanto nos tornávamos quem somos, sobre os vínculos nos quais ainda encontramos pertencimento e sobre aqueles em que conseguimos continuar mudando sem precisar esconder as diferentes versões de nós mesmos.
É por isso que algumas amizades podem fazer tanta falta mesmo depois de muito tempo.
Não sentimos falta apenas da pessoa. Às vezes sentimos falta também de quem conseguíamos ser quando estávamos com ela.
Referências
Antonucci, T. C., Ajrouch, K. J., & Birditt, K. S. (2014). The Convoy Model: Explaining social relations from a multidisciplinary perspective. The Gerontologist, 54(1), 82–92.
Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.
Carstensen, L. L., Isaacowitz, D. M., & Charles, S. T. (1999). Taking time seriously: A theory of socioemotional selectivity. American Psychologist, 54(3), 165–181.
Hall, J. A. (2019). How many hours does it take to make a friend? Journal of Social and Personal Relationships, 36(4), 1278–1296.
Lakey, B., & Orehek, E. (2011). Relational Regulation Theory: A new approach to explain the link between perceived social support and mental health. Psychological Review, 118(3), 482–495.
Pezirkianidis, C., Galanaki, E., Raftopoulou, G., Moraitou, D., & Stalikas, A. (2023). Adult friendship and wellbeing: A systematic review with practical implications. Frontiers in Psychology, 14, 1059057.


