Depois que me tornei mãe, comecei a perceber pequenas cenas que antes provavelmente passariam despercebidas.
Essa mudança não aconteceu de uma vez. Aos poucos, percebi que, quando encontro uma mulher com um bebê pequeno, quase nunca olho primeiro para a criança. Meu olhar vai para ela.
Há algumas semanas, vi uma mãe fazendo compras no mercado com um bebê dormindo em um sling. Ela caminhava devagar entre as prateleiras, escolhendo os produtos com cuidado para não acordá-lo.
Era uma cena simples, mas me peguei pensando em tudo o que não aparecia nela: as noites mal dormidas, a logística para conseguir sair de casa, a lista mental de tudo o que precisava lembrar, o corpo ainda se adaptando, as dúvidas, as renúncias.
Eu não sabia absolutamente nada sobre aquela mulher. Ainda assim, pela primeira vez, percebi que meu olhar estava voltado para quem sustentava aquela experiência, e não apenas para o bebê.
Essa percepção também me fez revisitar algumas lembranças.
Quando minha irmã se tornou mãe, acompanhei aquele momento de perto. Na época, achei que estivesse sendo presente. Hoje percebo que, como acontece com tantas pessoas, minha atenção também estava voltada principalmente para o bebê.
Foi só depois de viver a maternidade que compreendi melhor a dimensão da transformação que ela atravessava. Em algum momento, senti vontade de pedir desculpas por não ter conseguido enxergar isso antes.
Talvez algumas experiências mudem não apenas a forma como vivemos, mas também a maneira como passamos a olhar para os outros.
Donald Winnicott escreveu uma frase bastante conhecida na Psicanálise: “não existe essa coisa chamada bebê”. À primeira vista, ela pode parecer estranha. Mas a ideia é simples: um bebê nunca existe sozinho. Seu desenvolvimento acontece sempre em uma relação de cuidado.
Foi só algum tempo depois que descobri que essa transformação também recebeu um nome.
Existe um termo para ela: matrescência. O conceito descreve a profunda reorganização que acompanha o tornar-se mãe. Desenvolvido por autores como Daniel Stern e amplamente difundido nos últimos anos pela psiquiatra Alexandra Sacks, ele parte de uma ideia simples: a maternidade não muda apenas a rotina de uma mulher. Ela transforma sua identidade, seus vínculos, sua relação com o próprio corpo, com o tempo e, muitas vezes, com a maneira como ela passa a enxergar a si mesma.
Apesar de falarmos muito sobre o nascimento de um bebê, falamos pouco sobre o nascimento de uma mãe.
Esperamos que ela aprenda rapidamente a cuidar, que se adapte à nova rotina, que lide com noites mal dormidas, que continue presente no trabalho, na relação, na família e, se possível, que faça tudo isso com naturalidade.
Não é difícil entender por que tantas mulheres começam a acreditar que existe algo de errado com elas.
No consultório, essa pergunta costuma aparecer de outras formas: “Eu achei que fosse dar conta”, “As outras mães parecem conseguir”, “Não imaginei que seria tão difícil”.
Nem sempre estamos diante de um transtorno mental. Quando ele existe, precisa ser reconhecido e tratado. Mas, muitas vezes, essas falas revelam o impacto de uma transformação profunda que continua sendo vivida como se fosse apenas uma adaptação de rotina.
Quando enxergamos a maternidade apenas pelo que ela acrescenta à vida de um bebê, corremos o risco de esquecer tudo o que ela transforma na vida de quem se tornou mãe. E, quando essa transformação deixa de ser reconhecida, o sofrimento muda de lugar.
Em vez de ser compreendido como parte de uma experiência humana complexa, passa a ser vivido como sinal de incapacidade individual.
Talvez a discussão sobre saúde mental materna comece antes dos diagnósticos. Comece quando reconhecemos que o nascimento de um bebê também marca o início de uma profunda transformação para quem se torna mãe. Porque, quando essa transformação deixa de ser vista, o sofrimento pode parecer apenas uma incapacidade individual.
E talvez a primeira pergunta não devesse ser “o que há de errado com essa mulher?”, mas sim: “O que ela está atravessando?”
Referências
Raphael, D. (1975). The Tender Gift: Breastfeeding. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall. (Obra em que Dana Raphael introduz o conceito de “matrescence”.)
Stern, D. N. (1995). The Motherhood Constellation: A Unified View of Parent-Infant Psychotherapy. New York: Basic Books.
Sacks, A., & Birndorf, C. (2019). What No One Tells You: A Guide to Your Emotions from Pregnancy to Motherhood. New York: Simon & Schuster.
Winnicott, D. W. (1987). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. (Reúne conferências em que Winnicott desenvolve a ideia da relação mãe-bebê e da preocupação materna primária.)


