Quando comecei minha carreira em recrutamento e seleção, há mais de vinte anos, o LinkedIn ainda nem existia. O hunting era muito diferente do que conhecemos hoje. Boa parte do trabalho acontecia por telefone, por indicações, por networking e por uma boa dose de curiosidade. Pesquisávamos empresas, mapeávamos estruturas, construíamos relacionamentos e, muitas vezes, encontrávamos um profissional por meio de uma conversa que levava a outra. Quem viveu essa época provavelmente vai se lembrar.
Depois vieram o LinkedIn, os sistemas de recrutamento, as entrevistas por vídeo, a digitalização dos processos e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa. Tive o privilégio de acompanhar todas essas transformações de perto e, olhando para trás, acho curioso perceber como, a cada nova tecnologia, parecia que estávamos diante de uma mudança definitiva na forma de trabalhar.
Há quase dois anos, quando deixei o mercado corporativo para me dedicar integralmente à Psicologia Clínica, a IA generativa ainda começava a ganhar espaço nas empresas. Havia muita curiosidade, muitos testes e uma pergunta no ar: até onde essa tecnologia conseguiria chegar? Mesmo estando fora do RH, nunca deixei de acompanhar essa transformação. Hoje continuo utilizando inteligência artificial praticamente todos os dias. Não para buscar candidatos, mas para estudar, revisar artigos, organizar ideias, fazer brainstorming e estruturar materiais psicoeducativos. Ela faz parte da minha rotina e ampliou, sem dúvida, a forma como aprendo e produzo conhecimento.
Ao mesmo tempo em que essa transformação acontecia nas empresas, outra mudança acontecia na minha rotina. Na clínica, comecei a escutar com cada vez mais frequência profissionais de diferentes áreas falando sobre ansiedade, exaustão, conflitos com lideranças, dificuldade em estabelecer limites e uma pergunta que aparecia de formas muito diferentes, mas com o mesmo significado: que lugar o trabalho ocupa na minha vida? Às vezes essa pergunta surgia depois de um burnout. Outras vezes, depois de uma promoção. Em alguns casos, depois de um desligamento. Em outros, mesmo quando tudo parecia estar dando certo.
Isso me fez pensar que, durante muitos anos, acompanhei pessoas entrando em novas empresas, mudando de carreira e assumindo posições de liderança. Hoje acompanho muitas delas tentando compreender a relação que construíram com o próprio trabalho. Curiosamente, a pergunta continua sendo muito parecida. O que mudou foi apenas o lugar de onde eu a escuto.
Enquanto aprendemos a trabalhar com ferramentas cada vez mais inteligentes, também começamos a perceber algo que talvez sempre tenha estado diante de nós: organizações continuam sendo feitas de pessoas. Pessoas carregam histórias, inseguranças, expectativas, relações, perdas, desejos e contradições. Talvez por isso não me surpreenda que, justamente no momento em que a inteligência artificial avança tão rapidamente, as empresas também estejam olhando com mais atenção para a saúde mental e para os riscos psicossociais no trabalho. As duas conversas não competem entre si. Na verdade, caminham lado a lado.
Olhando para trás, percebo que minha trajetória nunca foi apenas sobre recrutamento e hoje também não é apenas sobre Psicologia. Sempre foi sobre tentar compreender pessoas. Antes, a partir dos encontros entre profissionais e organizações. Hoje, a partir das histórias que cada um constrói na relação com o trabalho, consigo mesmo e com os outros.
A inteligência artificial continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão, outras deixarão de existir e o trabalho continuará mudando. O que ainda não mudou — e talvez nunca mude — são as perguntas que fazemos quando tentamos entender quem somos, o que buscamos e qual é o lugar que o trabalho ocupa na nossa vida.
É sobre essas perguntas que pretendo escrever por aqui. Não porque eu tenha todas as respostas, mas porque elas continuam me despertando a mesma curiosidade que me fez entrar no recrutamento, anos atrás, e que hoje encontro novamente na Psicologia.



